titulo do conteudo salanews OS HOMENS E AS MOSCAS

Esse frango deve ser cruzado com javali”, disse ela tentando descarnar um baita osso. Chovia e chovia. Hoje não pára mais. Acostume-se a torcer as meias e a enfiar relógio e celular em sacolinhas de supermercado. “Deveria comprar galochas”, resmungou embaixo de uma marquise, olhando o toró e senhoras gordurentas caminharem com babuches molhados e vãs sombrinhas. “O Otávio não sabe comprar porco”. Na tigela de ossos, ossos. Muitos ossos. O arroz nunca acabou tão cedo. Naquela noite iria fazer um frio dos infernos. “Maio aqui é assim”. “Que coisa”, disse. Uma gordinha de blusa verde e shortinho jeans passou pelo corredor algemada e de chinelas havaianas beges encardidas. “É puta?”, perguntou. “Dar não é crime aqui, bate-orelha”. A blusa verde tornou-se cinza na carceragem. O céu estava cinza que doía. Continua chovendo. Pneus esvaziam poças. Maio aqui é assim. “Mas é pecado!”, calou-se outra vez, (nespereira é a planta que dá nêsperas). O carisma dele era tornar-se indolor. “É pecado!” O porco estava no fim. “Da próxima vez vai o Bento no açougue. Você comprou carne de porco para porcos”. Cabisbaixo, morre o assunto. Vicente fez o Boletim de Ocorrência: mataram Waldick Soriano, seu gato. Ele não tinha como provar que foi homicídio, apenas disse que tinha muitos inimigos no logradouro pela sua índole habilmente enigmática de “trejeitos de gênero transgredido”. “Uma vez beijei um sujeito no portão (quão pudicos, fuinhas!) e a dona Vanilde me chamou de “cão”, “réplica do Demo”, “pé-torrado”, “sodomita” e “fim do mundo”. Ela cria calopsitas e papagaios (o neto é light, se contenta com pandorgas), um horror, as criaturinhas de grilhões. Um se chama Tomé, o outro Vieira e tem mais um que atende por Agostinho. Pode? (a pandorga por enquanto é pandorga). Poucos guarda-chuvas agora, vai parar. Já ta parando na verdade. “Uma mosca vive 1440 minutos. Ela tem apenas 24 horas para nascer, crescer, se desenvolver, reproduzir, envelhecer e morrer. Tem gente que passa a vida inteira sem fazer nada e não presta nem pra bater as botas”. “Você é horrível, Maria. Além de comparar-nos às moscas, julga tão facilmente seus irmãos”. “Meu irmão se chama Oscar, o resto são camaradas adventícios que sempre falarão seus próprios idiomas e defenderão seus centímetros de terras”, concluiu com calor e quase concreta madureza. Dois dias pro carnaval. Não soube por que lembrar disso, já que na sua cidade o carnaval não era mais do que os sorrisos carcomidos da Globeleza. Imundície. “Já ouviu falar na história de Santa Maria da Mala?”, perguntou Marilda. Ela coleciona santos, mas no fundo sabe que não tem passagem direta pro céu. Aprontou o suficiente, deu pra meio mundo. “Não coleciono santos porque creio neles. Coleciono santos por que...” Hoje é aniversário de Matias. O pai dele morreu na Espanha, um touro o pegou na rua, naquela corrida tradicional. Morreu feito uma mosca estapeada. Pena. Que pena. “Tava lá pra juntar la plata, ia voltar e comprar uma piscina pra mim”. Matias não tem raiva de touros. Acha até chique os toureiros. “Toureiro é um bicho chique”. A dança toda. A roupa toda. A morte toda. É complicado quando a crueldade é estética. “Papai era tolo, vivia voando”, disse sorrindo de saudade para Oséias. De repente veio um touro e derrubou o café e nem deixou ele comer aquela torrada apetitosa que lhe custara uma peseta. “Que triste”, argumentou Oseías coçando a panturrilha. Júlia tem uma língua que deus me livre, foi vacinada com agulha de vitrola. “É falta de homem”, falou seu pai. O último namorado a deixou dizendo que ela era tão exagerada que vivia pelos dois, falava pelos dois, amava pelos dois. “Você se basta, Júlia, deve ter se deflorado com o cabo de uma escova e ter dito que foi amor”. Quando ele bateu a porta ela gritou algo como “não tenho culpa se você não deu conta de comer tudo o que eu pus no teu prato, da colherada farta que eu pus com paixão na tua boca esfomeada!”, e chorou feito uma idiota por ter argumentado algo tão... idiota. “Você passou muito blush, parece que levou um tabefe”. Uma mosca sentou-se numa costela de porco, Clara disse: “vixi...” Dentro de um sapato novo e muito lustroso (para casamentos e missas capitais), o bilhete: quando você voltou, meu coração deu uma risada. “Que triste”, disse Oséias coçando a panturrilha. Ele tem problema nos brônquios. Edição digital

Fonte Umuarama Ilustrado.

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